Eu não conheci meus avós.

Eu não conheci meus avós. Meus pais nascidos no interior de São Paulo, ficaram órfãos de pai e mãe muito cedo. Uma tia avó que ajudou nos cuidados à minha mãe foi quem fez esse papel na minha vida. Tenho lembranças do cheiro do pé-de-moleque que ela fazia e que me fez tomar gosto eterno por esse doce. Outra tia, agora pelo lado paterno também me conquistou pela memória olfativa, do café coado no bule permanentemente no fogão à lenha e que eternizou o meu apreço por essa bebida.

E mais tarde, casada e com filhos, ter a oportunidade de observar meus filhos e o relacionamento afetuoso e cuidadoso deles com os avós (e que perduram hoje, como adultos) , só reforçava minha vontade em estar mais perto dos idosos.

Quando mais tarde, na faculdade, fui atender aos idosos do Lar dos Velhinhos de Campinas é que me dei conta que nutria uma empatia pelos mais velhos. Saía de lá me colocando no lugar daquelas pessoas, tentando compreender suas dores, seus saberes, seu afeto.

Depois de formada, atuei na saúde mental, em centro de convivência e cooperativa e lá eu atendia a muitos adultos e parte deles, idosos. E já observava a solidão daqueles duplamente maltratados por um sistema que afasta a doença mental assim como afasta a velhice, como se fosse algo a ser esquecido.

Aí decidi que a gerontologia seria o meu propósito e que sustentaria sempre a gerontologia no discurso, na prática cotidiana e no coração. O primeiro curso que fiz na área foi o do Dr. Papaleo, no Hospital do Servidor Público Municipal de SP e que presente era toda semana, ver o Dr. Papaleo abrir a aula!

Dali em diante minha trajetória seguiu, sempre estudando e me engajando na gerontologia a tudo que se relacionasse aos valores do respeito, dignidade, proteção de direitos, combate à invisibilidade e à violência em todas as suas formas, cobrança por políticas públicas e espaços mais amistosos aos idosos, além da prática de um cuidado ao idoso amoroso e responsável.

Tenho profunda gratidão à gerontologia e aos ensinamentos diários que ela me traz.

Sou Marília Sanches, terapeuta ocupacional especialista em gerontologia, uma mulher que acredita que a empatia é o caminho para uma vida mais feliz, e que espera poder ser avó um dia!