Em janeiro de 2021, o Porta dos Fundos publicou um esquete chamado “Responsável”. Nele, Fábio Porchat interpreta um homem em uma reunião on-line que é interrompido pela mãe. Ele entrega o celular para ela brincar enquanto trabalha, porque a trata como criança.
A personagem tinha 57 anos.
Os colegas de reunião completam o contexto dizendo que, nessa idade, é perigoso deixar o aparelho nas mãos “deles”.
Deles.
O uso do pronome já diz tudo. Não é uma pessoa, é uma categoria. Um preconceito travestido de humor.
O nascimento do Movimento #Atualiza
A reação veio inicialmente de participantes do grupo intitulado Envelhecimento 2.0, puxados pela Viviane Palladino. Indignada com o forte preconceito evidenciado no esquete, ela fez um chamado para que outros profissionais do coletivo participassem de um movimento para levar informação de qualidade sobre o etarismo — o preconceito relacionado à idade.
Nascia ali o Movimento #Atualiza Porchat, depois convertido no Movimento #Atualiza.
O chamado foi ouvido. Muitos profissionais se engajaram e se uniram ao movimento.
Mauro Wainstock, sócio-fundador da comunidade HUB 40+, divulgou nota de repúdio e lembrou que 92% dos brasileiros acima de 60 anos têm smartphone. A colunista Silvia Ruiz, do UOL, observou que justamente um grupo que se esforça para combater preconceitos havia tratado o público 50+ de forma equivocada. A publicitária Cris Guerra, hoje Cris Paz, gravou um vídeo explicando o que era aquilo.
Iniciamos uma série de lives sobre o assunto. Trouxemos o primeiro global a se pronunciar sobre o tema: Tony Ramos, em maio de 2021, e ajudamos a colocar luz na diversidade do envelhecimento.
Em outubro daquele ano, em parceria com a Associação Brasileira de Anunciantes, lançamos um Guia de Boas Práticas de Combate ao Etarismo, posteriormente traduzido para espanhol e inglês, e adaptado para Portugal, Espanha e América Latina.
Cinco anos depois, postamos novo texto com uma sensação que não é mais de raiva.
É cansaço.
O caso do Tio Paulo
Em abril de 2024, o país acompanhou o caso de Paulo Roberto Braga, 68 anos, levado já morto, em cadeira de rodas, a uma agência bancária de Bangu, no Rio de Janeiro, para assinar um empréstimo.
Um dos episódios mais degradantes que a nossa relação com a velhice já produziu.
No dia 18 daquele mês, no programa “Encontro”, Fábio Porchat encenou a cena com uma mulher da plateia, segurando o braço dela e levantando a cabeça, que pendia.
A repercussão foi imediata e negativa.
O que chama atenção não é a piada, é a defesa que ele apresentou no dia seguinte, em entrevista à rádio Nova Brasil.
Segundo ele, não sendo racista, não sendo homofóbico, não incitando a violência e o crime, toda piada é válida.
Leiam de novo a lista: racismo, homofobia, violência, crime.
O etarismo não consta.
Não porque ele o tenha excluído deliberadamente, mas por algo pior: porque não lhe ocorreu.
O preconceito etário é o único ignorado, e é exatamente por isso que ele sobrevive sem ser incomodado.
Ninguém precisa defendê-lo. Basta não saber que ele existe.
E agora, a avó
O passado presente.
Assistimos há poucas semanas, no perfil do Porta dos Fundos no Instagram, a um quadro construído sobre uma premissa que dispensa interpretação: a avó é um estorvo, dá trabalho, não contribui com nada e, para completar o incômodo, não morre.
A piada não está em nenhuma característica daquela mulher específica.
Está na duração da vida dela.
O riso proposto ao espectador é o riso do alívio que decorre da morte dela.
Será que isso é engraçado?
Repare no que se perdeu no caminho.
Em 2021, a esquete ridicularizava a suposta incompetência de uma mulher de 57 anos diante de um celular. Era ofensivo, mas ainda tratava de uma habilidade.
Agora, o alvo é a própria permanência da pessoa no mundo.
Descemos do “você não sabe” para o “você ainda está aqui?”.
Não é a mesma piada repetida.
É uma piada na sua pior versão.
Quando o preconceito contra a idade é normalizado
E aqui retomamos o ponto que mais incomoda.
Um humorista que fez carreira desmontando preconceitos, que conhece a diferença entre “rir com” e “rir de”, já foi publicamente avisado sobre esse tema específico e segue reproduzindo o mesmo comportamento.
Não por desconhecimento, portanto.
Por escolha, ou pela indiferença que só existe quando o grupo atingido não é considerado importante o bastante para merecer o cuidado dispensado aos outros.
No próprio conceito de diversidade, os idosos são uma espécie de “etc.”, pois nunca são incluídos.
Ressalva necessária
Em maio de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto do deputado Rodrigo Amorim declarando Porchat persona non grata no estado, justamente por causa do episódio do Tio Paulo.
Ele respondeu com ironia, dizendo que comemoraria o título depois de votado em plenário.
O Movimento Atualiza nunca se propôs a fazer crítica gratuita, mas sim a zelar pelo respeito e pela dignidade das pessoas mais velhas.
Quem combate preconceito não pede punição a humorista, pede consciência.
Transformar crítica em carimbo parlamentar não corrige nada, apenas oferece ao criticado o papel de perseguido, que é o melhor lugar possível para quem prefere deixar tudo como está.
Nosso verbo é atualizar, não silenciar.
Porchat não está sozinho
Seria confortável tratar isso como caso isolado de um humorista brasileiro.
Não é.
No Japão, o economista Yusuke Narita, professor assistente na Universidade Yale, declarou em dezembro de 2021, num programa on-line voltado ao público jovem, que a solução para o envelhecimento do país seria o suicídio em massa e o seppuku coletivo dos idosos.
O caso ganhou o mundo em fevereiro de 2023, quando os jornalistas Motoko Rich e Hikari Hida o expuseram no The New York Times.
Narita alegou que suas palavras eram metáfora abstrata e que haviam sido tiradas de contexto.
O colunista Masato Fujisaki, na Newsweek Japan, respondeu que aquilo não deveria ser aceito como simples metáfora.
O jornalista Masaki Kubota apontou o efeito prático: quem se assusta com o custo do envelhecimento pode concluir que o problema são os próprios avós.
Vale lembrar que, em 2013, o então ministro das Finanças japonês, Taro Aso, já dissera que os idosos deveriam se apressar em morrer para poupar gastos médicos.
Nos Estados Unidos, durante a pandemia, circulou nas redes a expressão “Boomer Remover”, tratando a mortalidade dos mais velhos como uma necessária faxina geracional que liberaria empregos e imóveis.
E em 24 de março de 2020, no programa de Tucker Carlson, na Fox News americana, o vice-governador do Texas, Dan Patrick, então com 69 anos, afirmou que aceitaria arriscar a própria sobrevivência para preservar a economia para filhos e netos, resumindo que, se essa fosse a troca, ele topava.
Um mês depois, questionado, reafirmou dizendo que existem coisas mais importantes do que viver.
De onde ele tirou essa conclusão?
O padrão se repete em contextos muito diferentes: humor, academia, redes sociais e política.
Muda o sotaque, não muda a premissa.
A premissa é que a vida do velho vale menos.
Por que isso não é bobagem
Em março de 2021, a Organização Mundial da Saúde publicou, junto com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais e o Fundo de População das Nações Unidas, o Relatório Mundial sobre o Idadismo.
A pesquisa ouviu mais de 83 mil pessoas em 57 países e concluiu que uma em cada duas mantém atitudes moderadas ou altamente discriminatórias em relação à idade.
O documento é explícito quanto aos efeitos.
O preconceito etário piora a saúde física e mental, contribui para a pobreza e a insegurança econômica na velhice e amplia o isolamento social e a solidão.
Não é uma ofensa que passa.
É fator determinante de saúde.
Nosso pedido
O Movimento Atualiza não defende essa causa na condição de vítima, mas sim como grupo de pessoas esclarecidas que reconhecem o dano em quem tem voz menos potente.
Para cada um que ri da avó que não sabe usar o celular, há uma outra que se convence de que nunca irá aprender algo de novo.
Não pedimos punição, nem pauta de costumes, nem tribunal.
Reivindicamos o que o nosso movimento sempre pediu:
Atualize-se!
Porque a piada não envelheceu mal.
Ela já nasceu velha.
E dói perceber que quem tem o talento e o alcance para renovar o repertório do país prefira repetir o roteiro mais antigo que existe, aquele em que o velho é o estorvo descartável.
E vamos combinar que há muitos outros temas que podem alimentar o humor.
Fábio Porchat é bom no que faz.
Essa é a parte triste.
O talento amplifica o alcance de seu discurso e, nessa pauta, ele tem escolhido mal as palavras.
Enquanto isso, nós continuamos aqui, na mesma luta de cinco anos atrás, sem ressentimento e com esperança.
Nunca é tarde para se Atualizar.
