Querida Marilia,
Há tempos acompanho seu lindo e relevante trabalho!
Como teria sido bom se já a conhecesse enquando fui cuidadora da minha mãe, por 12 anos, até sua passagem em 2018, aos 95 anos.
Durante os 10 anos iniciais, felizmente, tive condições de mantê-la bem próxima a mim, enquanto ela tinha autonomia física e mental, residindo em apartamento alugado vizinho ao meu.
Mas logo começaram as quedas e os “esquecimentos perigosos”: o fogão aceso com panela ardendo, a carteira que “alguém pegou”, as torneiras escorrendo água dia e noite, etc, etc.
Então, foi a hora de tentar cuidadoraS. Sim, no plural, já que minha jornada profissional em um banco multinacional nunca era inferior a 10horas/dia, o que, por si só já seria beeeem cansativo e a jornada seguia noite a dentro, administrando frequentes conflitos entre as profissionais e também entre elas e minha mãe.
Sou e serei eternamente grata à possibilidade de poder ter bancado todos os custos (que nãoeram poucos!), até que veio o PDV (Programa de Demissão Voluntária), propondo uma recompensa financeira que muito me interessou, à época.
Mas que também mudou radicalmente a condição financeira da família.
Foi nessa fase que percebi talvez a última das muitas heranças que minha mãe deixou_nenhuma financeira, diga-se de passagem, mas todas muito valiosas!
Frente à enorme dificuldade de encontrar apoio, produtos e serviços que atendessem às necessidades dela, criei uma assessoria de marketing para empresas de “setor prateado”.
Dedicava-me em tempo parcial, pois precisava conciliar com atividade profissional inclusive para poder bancar os cuidados com ela, filhos e comigo mesma.
No seus últimos 12 meses de vida, já morando no interior de SP, encontrei um residencial que nos atendeu maravilhosamente em termos de cuidados com minha mãe e financeiramente compatível com minha renda oscilante.
Lá ela foi feliz, sempre acompanhada e muito bem acolhida. Mas também um período de muitas críticas e pressão: “você vai largar sua mãe lá?”
São muitas as boas lembranças de minha mãe, mulher forte, saudável durante a grande parte da sua vida e que serve de lindo exemplo para mim e meus filhos.
Porém, guardo numa caixa de “coisas a esquecer” os momentos de extremo cansaço, estresse e perda de paciência (confesso!) pelo dia a dia da ingrata e não reconhecida função de “cuidadora não profissional” que nós, filhas, netas, noras, vizinhas exercemos (quase sempre mulheres), sem qualquer valorização.
Como é difícil manter todos esses “pratos girando”, sem perder o auto controle e frequentemente, a saúde!
Sou sua fã, Marília! Você apoia, inspira e acolhe com sabedoria e carinho.
Grande abraço!
